arte&meios tecnológicos


V ENCONTRO: EXPERIENCIA NEOCONCRETA

V Encontro arte&meios tecnológicos – Experiência neoconcreta e aspectos contemporâneos

Convidados: Lucio Agra, Priscila Arantes, Ricardo Basbaum

Relato por Cecília Bedê



Arte&meios tecnológicos é o nome do grupo de pesquisa que se reúne na Faculdade Santa Marcelina para discutir e estudar sob um ponto de vista crítico e experimental as relações entre processos artísticos e mídias tecnológicas.

O grupo é coordenado por Christine Mello (pesquisadora, crítica e curadora) e composto por: Carolina Toledo, Denise Agassi, Paula Garcia, Ananda Carvalho, Lucas Bambozzi, Nancy Betts, Lyara Oliveira, Monique Alain, Cláudio Bueno, Eduardo Salvino, Mariana Shellard, Leandro Carvalho, Ana Paula Lobo, Josy Panão e Marcelo Salum; jovens artistas, críticos, curadores e pesquisadores. A cada semestre o grupo organiza encontros nos quais o foco de seus estudos e pesquisa torna-se objeto de debate não só entre os componentes, mas também para o público interessado em geral.

Em dezembro de 2009, fui convidada pelo grupo para participar do IV Encontro Arte&Meios Tecnológicos: debates contemporâneos e relatar sobre os dois dias de evento. No fim do relato produzido em 2009, eu destaquei: ”Ao final do encontro, o grupo se reuniu para discutir e planejar as atividades de 2010, os objetos de estudo, as leituras e a organização do livro que reunirá todos os artigos apresentados nesse encontro.”

O Convite para acompanhar o V Encontro, que aconteceu em 14/06/2010, me trouxe a sensação de não somente poder relatar, mas também de continuar acompanhando os processos de trabalho do grupo. E pude, portanto ver seus objetivos se realizarem e novos planos serem traçados.

Diferente do encontro anterior, no qual os próprios integrantes do grupo eram os proponentes das mesas, o V Encontro trouxe convidados para debaterem o tema: “Experiência neoconcreta e aspectos contemporâneos”. Ricardo Basbaum, Lúcio Agra e Priscila Arantes foram os convidados para este dia de troca.

O encontro é aberto pela Coordenadora do Mestrado em Artes Visuais da FASM, Mirtes Marins, que destaca a importância das ações do grupo arte&meios tecnológicos e como elas têm transformado o ambiente de pesquisa, tão necessário para um curso de mestrado. Christine Mello, em seguida, fala sobre a abertura da faculdade para o desenvolvimento do grupo e agradece pelo espaço de liberdade que eles encontraram para o desenvolvimento de suas pesquisas.

A importância dos encontros, segundo Christine, está em trazer para dentro das discussões do grupo, cruzamentos e trocas com outros profissionais convidados e o público interessado em participar.

O encontro segue com Denise Agassi e Paula Garcia que apresentaram o resumo das atividades do grupo desde sua formação, em 2007, até hoje. Denise comenta sobre os textos estudados e sobre os encontros anteriores e seus temas. Paula apresenta imagens e relata sobre o *III Encontro, onde o grupo realizou três exposições na Escola São Paulo. Nesse encontro, o grupo e se dividiu e a partir dessas formações trabalharam sob processos artísticos e aspectos da crítica e curadoria, tendo as exposições como resultado desse trabalho.

Em seguida, Denise e Paula apresentaram o material gráfico de “arte contemporânea: o processual em meios tecnológicos”, livro que reunirá os textos produzidos pelo grupo, os mesmo que foram apresentados no encontro de 2009. Além disso, essa publicação aglutina processos como os de edição, organização e de intervenção artística: sempre que a palavra TECNOLÓGICA aparece nos textos, ela explode, criando ruídos nas páginas.

O livro inaugura também a logomarca criada – AMT – e traz em si a principal característica do grupo, o nítido trabalho baseado em uma coletividade.

Christine Mello, em seguida, dá inicio ao V Encontro falando sobre o tema escolhido: Experiência neoconcreta e aspectos contemporâneos. Ressalta que o principal objetivo é atualizar o debate e analisar com um olhar crítico os acontecimentos e as definições da época.

Em 2009, o Manifesto Neoconcreto completou 50 anos e para Christine e o grupo arte&meios tecnológicos a intenção aqui não é cristalizar as idéias neoconcretas, mas sim promover uma auto-crítica do presente, questionar hoje as idéias ali posicionadas. Tratar a história como algo móvel, com muitas temporalidades e sem perder o foco principal das pesquisas do grupo, relacionar as ações neoconcretas com os meios processuais e tecnológicos da arte recente.

Ricardo Basbaum – Mecanismo x Organismo

O primeiro convidado a participar foi o artista, pesquisador, escritor e curador, Ricardo Basbaum. 
Para começar a discutir sobre o Neoconcretismo, Basbaum lembra do texto escrito por Haroldo de Campos, publicado no dia 23 de junho de 1957 no Jornal do Brasil: “da fenomenologia da composição à matemática da composição”, marco do afastamento de integrantes do grupo concreto, como Ferreira Gullar, para a criação do novo grupo: os Neoconcretos.

A partir daí, os grupos acirram diferenças e o Neoconcreto adquire contornos mais nítidos de trabalho, cria o manifesto e a teoria do não objeto, agindo na poesia e nas artes plásticas. Para Basbaum, essa cisão é importante para marcar e mostrar uma diferença na concepção da obra de arte.

A proposta do convidado aqui é pensar a atualização desse problema e verificar que caminho se abre para algo que permanece hoje. Textos, artigos, exposições marcaram aquela cisão, porém Ricardo afirma que essas divisões pertencem ao passado.

Naquele período, os dois grupos acreditavam estar dando o último passo, acreditavam ser vanguarda. Existia essa briga por uma pertinência histórica que segundo Basbaum, hoje já não faz mais sentido. A partir dos anos 60, a noção de vanguarda não se configura mais como “o que vem depois”, hoje não se faz mais esse uso da historia, não se discute vanguarda num sentido evolucionista. A antropologia substitui a historia como horizonte de referencias no debate da arte, do humano, do sensível e do sensorial. O futuro se coloca como catástrofe e não como evolução, afirma Basbaum.

A reação negativa de Gullar, diante do texto de Haroldo de Campos, se da devido a ausência de lugar do sujeito que recebe a obra nas propostas dos concretos. Segundo Basbaum, essas propostas têm uma rigorosa determinação a priori, a matemática da composição supera a fenomenologia da construção da obra. Elas querem fugir do sujeito e propor um rigor.

O Concretismo considera o leitor, porém em detrimento de um mecanicismo. É a briga entre mecanismo e orgânico. O Neoconcretismo mostra preocupação com o sujeito que recebe a obra, ela não esta pronta antes desse encontro. Presença do subjetivo, algo que não se esquece mais, até hoje. Ricardo Basbaum destaca ainda a exposição Nova Objetividade que trazia o texto de Helio Oiticica, Esquema Geral da Nova Objetividade, onde falava sobre uma vontade construtiva geral.

Essas ações coletivas funcionavam como painel de resistência ao governo militar, eles acreditavam que a pesquisa avançada em arte tinha um papel político de vanguarda. Assim os Neoconcretos conseguiram aproximar dois termos; vontade e construtivismo termos que a priore não poderiam estar juntos de acordo com o concretismo. Para Basbaum, trata-se da conquista da maturidade na pesquisa da obra de arte.

Os dois pólos, Concretismo e Neoconcretismo, criticam um sujeito romântico que não se comunica com o outro, mas no passo Neo, a configuração é mais avançada em relação ao campo da subjetividade. Trata-se da união entre a plataforma concreta + um diferencial; arte + corpo; máquina + organismo; corpo + dispositivo.

Ricardo Basbaum conclui falando que hoje, deve-se pensar o Concretismo e o Neoconcretismo, lado a lado, sem o perfil da disputa.

Aberto o debate, a crítica e curadora Lisete Lagnado chama atenção para o equívoco existente na insistência em associar o aspecto ambiental com o sentido político. Conta que Helio Oiticica afirmou que não queria ser um artista conceitual, que o conceitualismo está em Hélio assim como em Giotto. A idéia em Hélio não está na matriz Duchampiana.

Em resposta, Ricardo Basbaum fala da compreensão da palavra conceitual não só em relação à idéia, mas também com um sistema da economia, etc. O próprio projeto ambiental de Helio Oiticica poderia ser pensado a partir do aspecto sensorial e social. Poderia ter outra terminologia, mas a referencia traz o debate da presença discursiva e como ele era contemporâneo ao conceitualismo, acabamos relacionando.

Ao final, Basbaum comenta sobre a crítica de arte da época, tomando como exemplo Ronaldo Brito que a partir de interesses também próprios, de tentar iluminar o que lhe interessa, reclamava de um providencialismo. Para ele era importante resgatar o Neoconcretismo – iluminar a teoria dele sobre a arte contemporânea, é o critico engajado no que defende.

Lucio Agra – “Vitalidade só no underground”

A participação do pesquisador, artista e poeta Lucio Agra dentro dos debates do grupo art&meios começou no IV encontro, onde ele era parte do público. A partir daquele momento o convite foi feito para sua presença nesse V encontro.

Primeiramente, Lucio elogia o trabalho do grupo por trazer esse assunto como algo ainda por ser investigado a fundo. Além disso, afirma que já que a produção latina americana de arte contemporânea está em destaque em todo o mundo, este é o momento de tomar em nossas mãos o que é nosso e trazer para o debate. Para ele, é importante essa idéia de reativação, que na verdade pode significar construção. Cita Walter Benjamin que disse que re-coletar os cacos é a reativação. Estudar esses artistas do Neoconcretismo é reativação de coisas que foram postas de lado.

Ainda em seu momento de desenvolvimento, o Neoconretismo é atravessado pela ditadura militar. Com isso todos os caminhos foram entupidos para as artes em geral dentro dos circuitos oficiais. Pensar em algo com vitalidade só no underground, de outra forma não seria possível, comenta Lucio. O impulso que conduz o fenômeno da arte concreta e os debates do Neo continuam, mas foram bruscamente interrompidos e a partir daí as coisas ficam muito ruins.

A partir dessa contextualização, Lucio faz uma progressão pelos acontecimentos desencadeados. Quando chegam os anos 80, alguns artistas queriam falar o que não puderam nos 70 e outros queriam esquecer as propostas criadas principalmente por artistas como Hélio Oiticica. E isso corresponde exatamente com o retorno da pintura tão celebrado nessa época.

Segundo Lucio, se estivesse vivo, Helio contestaria tudo aquilo que representava a volta da pintura, ele afirmava que não era possível esse retorno. Isso da uma idéia do que se processa na cultura brasileira, o silenciamento de certas coisas no sentindo de não deixar o debate fluir numa direção que ia contra o mercado.

Helio Oiticica seguiu solitário a sua pesquisa quando chegou de Londres e após Gullar abandonar as idéias Neoconcretas, os únicos que conseguem ir no cerne da coisa vão ser Helio Oiticica e Lygia Clark. Os dois já tinham o devir da questão do corpo, antes mesmo que isso viesse a ser desenvolvido nos EUA.
Entre fatos e relatos, Lucio Agra provoca para a análise da atualidade em detrimento dos acontecimentos desse período, no Brasil. Extrapola o que foi silenciado e exige reconhecimento do que foi esquecido.

Priscila Arantes – Questões do tempo

A pesquisadora, crítica e curadora, Priscila Arantes traz inicialmente uma pequena fala para se situar e trazer a discussão pro terreno teórico estético, no campo da percepção. Aproveita para dirigir diferentes olhares para o objeto de pesquisa próprio e entender de que maneira ela se aproxima do objeto do encontro, o Neoconcretismo.

Para Priscila a questão do Neoconcretismo, a discussão do não objeto na teoria e nos diálogos de Ferreira Gullar, incorpora também a questão do tempo. Além de incorporar a dimensão do tempo e do movimento, vai incorporar uma visão de ruptura entre sujeito e objeto. A obra se da na relação.

A procura de pensar o que é o objeto nessa dimensão relacional e como ele se manifesta, já estava acontecendo no Brasil na fase Neo e lembrando-se da Estética Relacional de Nicolas Bourriaud, Priscila comenta como muitas vezes recorremos à pensadores de fora, enquanto no Brasil, alguns pensadores já refletiam e debatiam. Esse pensamento relacional levou a obra de arte da contemplação para a ação, para a dimensão vivencial e performática. O pensar a obra de arte nesse momento, é pensar uma relação com o mundo.

Construindo uma ligação entre essas idéias neoconcretas e sua pesquisa, Priscila fala que a estética do ponto de vista da filosofia é uma área menor, porém a percepção, principalmente em Merleau-ponty com a fenomenologia é tão importante, se não for mais. Na arte significa a inserção do corpo e do não objeto consumidos no tempo. No Neoconcretismo a principal ação foi à incorporação do corpo do observador, em relação com a obra.

Para Priscila, todas essas questões, da ruptura com a representação, com a noção de gênero (pintura, escultura, desenho etc.) e com conceitos fechados a levaram, em seu pós-doutorado, a desenvolver um olhar em relação a pensadores que incorporam a dimensão do tempo dentro do discurso estético. Pra finalizar, Priscila afirma que no Manifesto Neoconcreto, existe não só o discurso da obra de arte, mas também fala de uma dimensão maior de entendimento do mundo.

Durante o debate, Priscila complementa dizendo que toda essa dimensão do tempo é tanto do ponto de vista filosófico quanto artístico e vai aparecer em função da virada do século. O neoconcretismo é o momento em que isso explode de maneira mais radical pela aproximação da questão política.

Christine Mello finaliza o debate comentando que no momento em que nasce a teoria do não objeto, o crítico Mário Pedrosa questionou Ferreira Gullar afirmando que não poderia ser não objeto, porque o não objeto não é coisa alguma na filosofia. Ferreira Gullar responde dizendo: mas nos não somos filósofos, somos da arte, o não objeto é um objeto especial.

O V Encontro terminou deixando muitas questões no ar. Para o grupo arte&meios tecnológicos, todos os participantes e consequentemente pra quem leu esse relato, o impulso foi dado. Rever a própria história, pôr em dúvida conceitos estabelecidos e criar uma nova relação com o passado para pensar o atual é necessário. Só assim teremos propriedade sobre os nossos pensamentos.

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Publicado no Canal Contemporâneo em 6/jun/2010

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Abertura: Denise Agassi, Paula Garcia, Christine Mello e Mirtes Marins Coordenadora do Mestrado da FASM

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Mesa 1: Ricardo Basbaum e Christine Mello

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Ricardo Basbaum e Christine Mello

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V Encontro AMT FASM

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Mesa 2: Lucio Agra e Christine Mello

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Lucio Agra e Christine Mello

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Lucio Agra, Priscila Arantes e Christine Mello

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Mesa 3: Priscila Arantes e Christine Mello

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Sergio Basbaum

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Lisette Lagnado

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Cecilia Bedê



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