arte&meios tecnológicos


VI Encontro AMT: experiência popcreta


Abertura VI Encontro AMT:   Ananda Carvalho

VI Encontro arte&meios tecnológicos – Relato por Fabio Tremonte

O VI Encontro arte&meios tecnológicos: rearticulações na história da arte, Waldemar Cordeiro e experiência popcreta organizado pelo Grupo arte&meios tecnológicos ocorreu no dia 18 de novembro de 2010. Relato por Fábio Tremonte

Os Encontros acontecem semestralmente desde 2008, na Faculdade Santa Marcelina e abordam questões e reflexões que estão em torno da pesquisa do grupo e de artistas e teóricos que são chamados a dialogar com os seus integrantes durantes esses processos.

O grupo é formado por Christine Mello, Denise Agassi e Paula Garcia (coordenação), Ana Paula Lobo, Ananda Carvalho, Claudio Bueno, Eduardo Salvino, Josy Panão, Leandro Carvalho, Lyara Oliveira, Lucas Bambozzi, Marcelo Salum, Mariana Shellard e Monique Allain. Mais informações podem ser encontradas no site: https://artemeiostecnologicos.wordpress.com

A programação do encontro foi dividida em quatro mesas, sendo que a primeira foi composta por integrantes do grupo que deram um panorama geral sobre as atividades do mesmo. A três mesas seguintes foi formada por um pesquisador convidado e um integrante do grupo. Abaixo um breve relato sobre cada uma delas.

Abertura do VI Encontro: Investigações recentes do Grupo arte&meios tecnológicos
Christine Mello (Pesquisadora FASM), Denise Agassi (Pesquisadora PUC-SP) e Paula Garcia (Pesquisadora FASM) – coordenadoras do Grupo de Pesquisa arte&meios tecnológicos (CNPq/FASM). 
Mediação: Ananda Carvalho (Pesquisadora PUC-SP/arte&meios tecnológicos)

Ananda Carvalho inicia as atividades do dia apresentando o grupo que é formado por artistas, historiadores e críticos. A presença desses profissionais que atuam em camadas diferentes dentro do sistema de artes é interessante para os propósitos do grupo que pretende criar um diálogo entre os diversos espaços de atuação no campo da arte, entender a importância do espaço acadêmico de pesquisa em artes, assim a junção de discussão prática e teórica enriquece esses debates.

Denise Agassi apresenta a estrutura de encontro do grupo. Desenvolve basicamente dois tipos de encontros: semestrais, onde trazem historiadores e teóricos que fazem parte da bibliografia de pesquisa do grupo, e que são abertos ao público. E encontros mensais, onde os integrantes se encontram para debater essa bibliografia e também apresentar suas pesquisas.

Com início das suas atividades em 2007 e as organizando de forma trienal, o grupo planeja para breve o lançamento de um livro reunindo parte das idéias e conceitos discutidos e estudados durante esses três primeiros anos de existência.

Christine Mello apresenta o tema do encontro e reforça a importância de se pensar um revisionismo histórico sobre determinados temas em arte para que se possa ter acesso a certos assuntos que parecem ter sido tão fortemente imbuídos de um padrão imposto pela história que não nos permite ir além e perceber as suas sutilezas no período em que ocorreu e nem a sua contribuição efetiva para a o processo de formação da nossa história da arte. Nesse encontro se dará especial atenção a Waldemar Cordeiro e ao contexto em que sua obra foi produzida.




Ananda Carvalho, Denise Agassi, Christine Mello e Paula Garcia

Rearticulações na História da Arte
Mirtes Marins (Pesquisadora FASM)
Mediação: Lyara Oliveira (Pesquisadora FASM/arte&meios tecnológicos)

Mirtes Marins considera importante trazer em sua fala questões que levem a uma reflexão sobre o resgate de um pensamento a propósito da pesquisa de natureza histórica. Durante sua explanação, percebemos dois aspectos a serem extremamente considerados: as questões da historiografia e a necessidade de uma reflexão do pesquisador sobre pesquisas de natureza histórica.

Sobre questões da historiografia, Marins diz que o pesquisador deve reconstruir seu objeto de pesquisa sobre novo prisma. É o próprio lugar que se reconstrói. Qualquer pesquisa é uma crítica epistemológica, nenhum termo pode ser usado de forma natural, desnaturalizar os conceitos, entender como constructo histórico. Fazer uma varredura histórica, perceber que os conceitos parecem normais, mas não são. A história é uma pesquisa num campo de impossibilidades. Dessa forma deve-se fazer história como reconhecimento e vivência e recuperar os diversos grupos que nele atuam. O processo de revisitar a história é olhar para o passado. Rearticular não pode abrir mão de olhar para aquilo que já foi feito e estudado.

Sobre a necessidade de uma reflexão do pesquisador sobre pesquisas de natureza histórica cita o texto de Walter Benjamin, Tese sobre conceito em história, onde diz ser em momentos de urgência, de catástrofe, de luta pela vida que o intelectual consegue ser rigoroso sobre sua observação. Esse texto é uma palavra de ordem, retira a capa de cientificismo que permeia os discursos históricos.

Cita ainda mais dois trechos desse texto, que dizem que o historiador deve nadar contra a corrente, deve buscar rever o que está cristalizado, pois como sujeito submetido à ideologia, tem o dever de desvendá-la e se posicionar. Assim, o processo de investigação e escrita da história para Benjamin não é uma visada de grandes acontecimentos. A história da arte tende a ser linear, escrita de uma forma perfeita.

O processo de escrita de história é um olhar presente para um passado escolhido, segundo Benjamin. Você escolhe sua origem, assim isso ilumina o presente, pois essas escolhas tem sentido, o historiador deve buscar entender essas escolhas. A história deve servir, principalmente, para pensarmos o nosso tempo, com nossas armas, com nossas possibilidades

Christine Mello diz que queria trabalhar o espaço do grupo. Momentos de buscar essa luz, essa reflexão que Marins trouxe. É tempo de buscar coisas que não estão tão claras. Dentre o que Marins apresentou, destaca as palavras de Benjamin quando diz que é no momento de urgência que se consegue ser pessoal. Cita um momento específico do grupo, onde discutiam acerca do nome usado por eles e sobre a pertinência em relação aos seus objetivos e desejos de pesquisa.

Mello também cita uma fala de Ricardo Basbaum, no encontro anterior do grupo, onde problematizava a cisão existente entre arte contemporânea e arte-tecnologia, que pode ser uma ferida aberta desde as discussões e separações estabelecidas pela história durante a existência dos movimentos concreto e neoconcreto.

Marins diz que uma coisa é se deparar com esse processo, estudar o que o artista diz como constituição da obra, verificar qual é o processo, pois é fundamentalmente educacional, não tem regras, têm níveis de atuação de procedimento, isso a apóia do ponto de vista pedagógico. Mas do ponto de vista histórico não funciona desse jeito, por isso a importância de um olhar revisionista durante a pesquisa histórica, para ser fazer um ajuste entre passado e presente. O importante é ser humano, é a tensão da vida. Diz se interessar por gente que vive a vida. Capturar esse instante no artista histórico é importante, pois assim é possível rever o que está cristalizado. É diferente de estudar o processo, é descristalizar o processo, desmistificar.


Mirtes Marins e Lyara Oliveira

Waldemar Cordeiro: a ruptura como metáfora 
Helouise Costa (Pesquisadora MAC/USP)
Mediação: Paula Garcia (Pesquisadora FASM/arte&meios tecnológicos)

Helouise Costa inicia sua participação comentando sobre a exposição de Waldemar Cordeiro que organizou no CEUMA, em 2001. Disse que a repercussão na época não foi muito grande, mas recentemente tem tido um retorno mais detido sobre esse trabalho. O que a leva a pensar que o interesse pelo trabalho desse artista está se recolocando.

A motivação inicial desse trabalho foi o contato permanente com a obra O beijo de Cordeiro, que pertence ao acervo do MAC/USP. Essa obra a intrigava, considerava uma obra muito madura nas suas proposições. Não entendia em que contexto ela podia ser compreendida na trajetória do artista, pois ele é muito mais compreendido dentro do concretismo. Esse trabalho era considerado como uma espécie de desvio de percurso, onde abandonava o concretismo austero, mas ela não se convencia disso. Decidiu se aprofundar nesse período de ruptura na produção de Cordeiro

A fotografia serviu de aproximação e direção nessa jornada. Cordeiro não tinha interesse na fotografia pela fotografia, mas sua motivação era a hibridação entre fotografia a artes visuais presente na produção de objetos, como possibilidade de discutir a ruptura das especificidades dos meios, sair de uma pintura concreta e passar a produzir esses objetos. A fotografia ofereceu subsídio para discutir coisas que não conseguiria de outro jeito, na forma de conceber o fazer artístico. Cordeiro Começa a questionar a relação entre público e obra de arte, assim a fotografia coloca em cheque a autonomia do objeto, e a relação com o mercado e o público.

Um pressuposto da pesquisa de Helouise era fazer uma aproximação entre a produção artística e os textos produzidos pelo artista, que ainda se encontram hoje muito dispersos. Na medida em que tomava contato com esses documentos percebia que uma idéia de uma autoconsciência critica acompanhava o pensamento do artista nesse processo de ruptura.

Diz que a fotografia entra não como representação, mas como uma espécie de ready-made. As imagens são apropriadas dos meios de comunicação de massa, assim é possível perceber que essas obras dialogam com a situação política do momento, não são apenas obras lúdicas como são tratadas em alguns textos. A pesquisa mostra que a assimilação da imagem apropriada dos meios de comunicação de massa foi uma estratégia usada de forma sistemática e não casual.

A instabilidade do olhar do observador é colocado em cheque em muitas dessas obras desse período, esse olhar é modificado e pode trazer muitas leituras do real. Quando coloca uma lente sobre uma fotografia, ele dá certo domínio ao observador sobre esse olhar. Em um trecho da A obra aberta, Umberto Eco diz que uma obra cinética não é aquela que se move a partir de motores, mas que coloca seu entorno em movimento. A idéia de pontos de vista é fundamental para amarrar uma situação comum entre a produção de trabalhos desse período, que buscavam uma maior aproximação do público, daí a preocupação em criar objetos que podiam permitir graus diferentes de interação.

O Beijo entra como um objeto eletromecânico fragmentado, a boca representada é de Brigite Bardot, essa referência muda a leitura da obra, pois se identifica a pessoa, ela veio ao Brasil em 64 e a mídia cobriu a sua presença em Búzios. Como imagem, Bardot trazia uma nova ética sexual para a mulher, assim usar a boca dela no trabalho o torna fortemente representativo e dialoga com o contexto e cria uma nova espessura histórica. Se por um lado ele trabalha com essa boca sensual, em outro momento quando a obra abre, essa imagem se esfacela, faz uma relação com nossos meios tecnológicos, com a gambiarra. Um híbrido que caracteriza o trabalho dele como um todo. Revisita alguns procedimentos dadaístas, quando entra por caminhos sexuais, que são interrompidos.

A pesquisa de Cordeiro tinha um fundamento muito sólido da história da arte e de um contexto social brasileiro daquele momento específico.


Helouise Costa e Paula Garcia

Anos 1960 e experiência popcreta
Ferdinando Martins (Pesquisador ECA-USP)
Mediação: Josy Panão (Pesquisadora arte&meios tecnológicos)


Ferdinando Martins inicia sua apresentação projetando duas imagens de pinturas renascentistas. Diz ter os textos de Arthur Danto como base de suas pesquisas, onde ele mostra porque objetos comuns deixam de ser meros objetos e se tornam obra de arte. Do que Danto está tratando? Danto acredita que há uma experiência estética na arte, mas a dificuldade que temos de nomear a arte é uma dificuldade de entender esse processo. Existe uma experiência humana a qual podemos chamar de artística. É uma experiência transcendente, que nos faz vislumbrar outro espaço, que nos retira da sordidez da existência, isso é uma experiência estética.

No renascimento, a arte passou a ser um campo especifico da produção humana. Passa a ter outro padrão do olhar, após a criação da perspectiva, do uso de proporção entre as figuras representadas. A partir do Renascimento cria-se uma discussão artística e organiza-se um campo artístico. O artista passa a ser um profissional diferenciado. Isso vai durar até os anos 50 do séc. XX. Muitas mudanças ocorrem, mas o sistema artístico é o mesmo.

Esse sistema dura até o abstracionismo, que sinaliza um esgotamento desse processo iniciado no renascimento, sinaliza também essa passagem para a arte contemporânea. Essa passagem vai ser indicada principalmente pelo deslocamento da obra, que era quem produzia a experiência estética. Era uma arte de obras. Na passagem o que vamos chamar de arte não é mais a obra, mas o processo.

Essas mudanças estavam latentes em São Paulo, nos anos 60. Waldemar Cordeiro é emblemático, pois vai tentar não negar essa nova obra que surge, mas ao mesmo tempo busca entender como se adaptar a essas transformações.

A efervescência cultural de São Paulo era invejável, sobretudo após o golpe de 64. Havia uma movimentação artística sem precedentes, de 64 a 68. Mas e a censura? Nas artes plásticas ela sempre existiu desde o Brasil colônia até 88. No caso do teatro da década de 30 até 70. A década que mais censurou o teatro foi a dos anos 50. Após o golpe a atenção do censor era o combate ao comunismo, assim até o AI-5 havia uma grande liberdade para a produção artística.

Por outro lado, São Paulo tinha uma vocação vanguardista. Nesse contexto surgem artistas como Flávio de Carvalho que antecipa em seus trabalhos algumas características do que viria a ser conhecido como performance.

Também surge nos anos 60, o grupo Rex, uma das experiências artísticas mais significativas em São Paulo nesse período. Surge como uma grande ironia, questionando esse sistema de artes que se esgotava. Desde a escolha do nome, um nome de cachorro; a galeria com nome em inglês; o jornal Rex Time, onde se divulga idéias e convidados. O Rex só acabou porque eles se cansaram, era uma festa por dia. Na capa do primeiro número do jornal, a manchete é um aviso: É a guerra. Guerra contra o sistema de arte que acabava. Estava surgindo outro sistema que ninguém sabia o que era, mas substituía um sistema de cinco séculos. Hoje isso já nos é natural, já aceitamos como arte. Criar uma galeria foi um processo, gerou uma experiência artística. O núcleo duro do Rex: Nelson Leiner, Geraldo de Barros e Wesley Duke Lee irão manter a coerência do Rex nas suas produções individuais.

Popcretos

Assim, deslocou-se a arte de obra para processo, surge uma arte não mais erudita, mas que dialoga com a massa. Nesse contexto que aponta para o que chamamos hoje de arte contemporânea que surge o popcreto. Waldemar Cordeiro compartilha dessas preocupações na sua pintura chamada Movimento, criando uma obra quase musical, que tem movimento, ritmo. A idéia de Cordeiro é que tudo pode ser arte desde que você se aproprie dessa idéia.

O sistema de arte que temos hoje ainda é antigo, mas a arte é nova. Ainda vivemos isso. Uma arte contemporânea com sistema renascentista.

 




 

Josy Panão e Ferdinando Martins
Publicado no Canal Contemporâneo, em 14.01.2011.

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